Há países que conquistam a independência e começam imediatamente a construir o futuro. A Eritreia preferiu um percurso mais complicado. O país passou décadas à espera e enfrentou uma guerra de libertação que durou trinta anos. Quando finalmente alcançou a independência, a população descobriu que a liberdade política era apenas o primeiro capítulo de uma história difícil.
A Eritreia fica situada no Corno de África, junto ao Mar Vermelho. O país tem um território relativamente pequeno, mas carrega uma História muito pesada. Durante muito tempo, a região nem sequer teve a oportunidade de decidir o próprio destino.
A Colonização Italiana e a Transição para o Domínio Britânico
A Eritreia moderna começou a ganhar forma com a colonização italiana, no final do século XIX. Os italianos instalaram-se no território em 1885 e transformaram Asmara num importante centro administrativo. Os colonizadores construíram estradas, edifícios e linhas ferroviárias. Eles deixaram uma arquitetura urbana que ainda hoje distingue a capital.
Além disso, os italianos deixaram a habitual herança colonial. As fronteiras foram desenhadas segundo interesses externos e a vontade da população raramente contava. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, as forças britânicas derrotaram os italianos na região.
Por conseguinte, a Eritreia passou para a administração britânica. O território ficou à espera de uma decisão internacional sobre o seu futuro. A espera, contudo, estava longe de terminar.
A Anexação Etíope e o Início da Guerra de Libertação
Em 1952, uma decisão das Nações Unidas colocou a Eritreia numa federação com a Etiópia, sob a autoridade do imperador Haile Selassie. A fórmula previa autonomia, um parlamento próprio e determinadas instituições nacionais. No papel, a medida parecia uma solução de compromisso.
Na prática, o imperador esvaziou a autonomia progressivamente. Em 1962, Haile Selassie dissolveu a federação e anexou o território à Etiópia. A Eritreia tornou-se apenas uma província do império etíope.
A anexação transformou um problema político num grave conflito militar. Na verdade, a luta armada pela independência já tinha começado em 1961. A decisão etíope desencadeou uma das mais longas guerras de libertação do continente africano.
Três Décadas de Conflito e a Conquista da Soberania
Durante três décadas, os movimentos independentistas enfrentaram forças etíopes superiores em armas e recursos. O conflito atravessou mudanças profundas. Em 1974, o regime militar marxista Derg, liderado por Mengistu Haile Mariam, derrubou Haile Selassie.
A mudança de regime em Adis Abeba não trouxe a paz. A guerra continuou e provocou enormes perdas humanas e destruição. A população civil suportou as consequências de um conflito sem fim à vista.
Em 1991, as forças independentistas conquistaram Asmara e terminaram a guerra. Em abril de 1993, a população votou massivamente pela independência num referendo internacional. A 24 de maio de 1993, a Eritreia tornou-se formalmente um Estado soberano. Isaias Afwerki assumiu a presidência e continua no poder em 2026.
Instabilidade Regional e as Tensões no Corno de África
A história posterior trouxe novos conflitos. Entre 1998 e 2000, a Eritreia e a Etiópia enfrentaram-se numa guerra fronteiriça devastadora. Os dois países mantiveram uma hostilidade prolongada durante anos.
Em 2018, os governos iniciaram uma aproximação e reabriram as fronteiras diplomáticas. No entanto, a reconciliação revelou-se frágil. A guerra no Tigré, entre 2020 e 2022, voltou a envolver tropas eritreias em território etíope.
A crise agravou a desconfiança mútua. Em outubro de 2026, a Etiópia expulsou diplomatas eritreus e fechou a sua embaixada em Asmara. A Eritreia respondeu com o corte total de relações diplomáticas. As feridas históricas do Corno de África voltaram a reabrir.
Os Desafios Internos e o Potencial do Mar Vermelho
A situação interna do país também enfrenta grandes dificuldades. A Eritreia não realiza eleições nacionais desde 1993 e não possui imprensa independente. O serviço militar e nacional obrigatório dura frequentemente muitos anos.
Por outro lado, organizações internacionais denunciam restrições à liberdade e detenções arbitrárias. O governo justifica estas medidas com a segurança nacional e a defesa da soberania.
Apesar dos problemas, a capital Asmara conserva um património arquitetónico notável. A UNESCO reconheceu os seus edifícios modernistas italianos como Património Mundial.
Além disso, os portos de Massawa e Assab oferecem uma localização estratégica valiosa no Mar Vermelho. O país reúne uma posição geográfica privilegiada e uma população resistente. Contudo, o seu potencial continua limitado pelo isolamento político. A promessa da independência ainda não chegou totalmente ao seu destino.

